Gisele Rocha, obtém segundo lugar no 35º Concurso Literário Internacional
Ufanamo-nos ou reconhecemo-nos?
As praias do Brasil ensolaradas, verdejadas por palmeiras onde canta o
sabiá… Florão da América, com a liberdade raiando em seu horizonte…
Músicas, poemas e hinos são os pigmentos de uma garbosa tela, misto de
romantismo com contornos árcades, digna de ser afixada no mais nobre
espaço do Louvre, intitulada “Brasil”. Todavia, tal obra-prima, mesmo tendo sua
existência reconhecida mundialmente, segue encaixotada, acumulando poeira,
pois ninguém sabe responder à pergunta: quem a pintou?
Alguns cogitam que o artista há muito já fora levado pelos braços
traiçoeiros do tempo, uma vez que o cenário por ele vislumbrado sugere ser de
outrora. Outros dizem tratar-se de um prisioneiro cuja única visão entre as
grades é definida por seu desejo de soltura e não por seus olhos. Há os que
afirmam que o pintor é um abastado, avesso ao convívio social, que nutre o
hábito de traduzir em arte seu universo particular. Enfim, as hipóteses de
autoria são fecundas, porém seguem sem comprovação.
Enquanto famosos críticos de arte buscam reunir indícios de autoria,
artistas encobertos pelo anonimato do cotidiano desenham, com traços firmes
e poucas cores, telas com o mesmo título, compondo uma vasta coleção que
vai do Oiapoque ao Chuí. Estes artistas, mesmos sem conhecerem-egoria crônica
Ufanamo-nos ou reconhecemo-nos?
As praias do Brasil ensolaradas, verdejadas por palmeiras onde canta o
sabiá… Florão da América, com a liberdade raiando em seu horizonte…
Músicas, poemas e hinos são os pigmentos de uma garbosa tela, misto de
romantismo com contornos árcades, digna de ser afixada no mais nobre
espaço do Louvre, intitulada “Brasil”. Todavia, tal obra-prima, mesmo tendo sua
existência reconhecida mundialmente, segue encaixotada, acumulando poeira,
pois ninguém sabe responder à pergunta: quem a pintou?
Alguns cogitam que o artista há muito já fora levado pelos braços
traiçoeiros do tempo, uma vez que o cenário por ele vislumbrado sugere ser de
outrora. Outros dizem tratar-se de um prisioneiro cuja única visão entre as
grades é definida por seu desejo de soltura e não por seus olhos. Há os que
afirmam que o pintor é um abastado, avesso ao convívio social, que nutre o
hábito de traduzir em arte seu universo particular. Enfim, as hipóteses de
autoria são fecundas, porém seguem sem comprovação.
Enquanto famosos críticos de arte buscam reunir indícios de autoria,
artistas encobertos pelo anonimato do cotidiano desenham, com traços firmes
e poucas cores, telas com o mesmo título, compondo uma vasta coleção que
vai do Oiapoque ao Chuí. Estes artistas, mesmo sem conhecerem-se, nutrem
algo em comum: usam em suas obras o sombreado da realidade.
Ao contrário da misteriosa tela, as demais, assinadas com suor por
mãos sujas e calejadas, não despertam grande interesse. Compreende-se.
Quem deleitar-se-ia contemplando uma criança esquálida diante de uma
panela vazia? Quem seria capaz de sorrir diante do retrato de um filho que
chora a morte de seus pais por uma doença pandêmica evitável mediante a
aplicação de uma vacina recusada por gravatas cujos nós asfixiam milhares de
vidas? Quem pagaria milhões para levar para casa uma carteira de trabalho
apagada pela informalidade? Quem dormiria feliz após ver retratado que as
cores do arco-íris são lindas quando inatingíveis, mas são sinônimo de
humilhação e até mesmo morte quando estampam uma vida?
Oscar Wilde, influente escritor irlandês, certa vez disse que a vida imita a
arte muito mais do que a arte imita a vida. Bem vê-se que a afirmação partiu de
um nórdico. Até quando, em terras tupiniquins, reinará a ilusão de que a vida
algum dia assemelhar-se-á aos escorços da tela de autoria indefinida?
Só restam duas alternativas: seguirmos ufanados mediante uma obra
empoeirada ou reconhecermos que, apesar das poucas tintas e pincéis, somos
nós os artistas com coragem para assinarmos embaixo do Brasil que pintamos
diariamente. Ufanamo-nos ou reconhecemo-nos? nutrem
algo em comum: usam em suas obras o sombreado da realidade.
Ao contrário da misteriosa tela, as demais, assinadas com suor por
mãos sujas e calejadas, não despertam grande interesse. Compreende-se.
Quem deleitar-se-ia contemplando uma criança esquálida diante de uma
panela vazia? Quem seria capaz de sorrir diante do retrato de um filho que
chora a morte de seus pais por uma doença pandêmica evitável mediante a
aplicação de uma vacina recusada por gravatas cujos nós asfixiam milhares de
vidas? Quem pagaria milhões para levar para casa uma carteira de trabalho
apagada pela informalidade? Quem dormiria feliz após ver retratado que as
cores do arco-íris são lindas quando inatingíveis, mas são sinônimo de
humilhação e até mesmo morte quando estampam uma vida?
Oscar Wilde, influente escritor irlandês, certa vez disse que a vida imita a
arte muito mais do que a arte imita a vida. Bem vê-se que a afirmação partiu de
um nórdico. Até quando, em terras tupiniquins, reinará a ilusão de que a vida
algum dia assemelhar-se-á aos escorços da tela de autoria indefinida?
Só restam duas alternativas: seguirmos ufanados mediante uma obra
empoeirada ou reconhecermos que, apesar das poucas tintas e pincéis, somos
nós os artistas com coragem para assinarmos embaixo do Brasil que pintamos
diariamente. Ufanamo-nos ou reconhecemo-nos?
